julho 05, 2006

Ônibus 174

Belo Horizonte, abril de 2006. Disciplina: Psicologia social. A professora pediu um comentário subjetivo, pessoal, que exprimisse nossos sentimentos e pensamentos ao ver o documentário.

Aí está.


"Como perdi a exibição em sala de aula, assisti ao documentário 'Ônibus 174', de José Padilha, sozinha em minha casa, e isso talvez me deixou menos inibida para exprimir toda a angústia que senti ao ver o filme. Achei a idéia muito inteligente e dilacerante. Um verdadeiro sacolejo de realidade, ao fazer repensar nossa maneira de ser, de agir e de pensar como parte integrante de uma sociedade.

Na verdade, tanto fiquei paralisada pelo filme, que sinto dificuldade até mesmo em comentá-lo. Como se fosse uma gota diante do desespero que provei, e diante do que merece ser refletido. Sendo assim, serei breve no que tenho a discorrer, porque creio que conseguirei menos dizer do que sentir.

Meus comentários não se darão na questão de 'vitimização' e 'culpa' do Sandro. Na minha opinião, não é a principal reflexão a se fazer acerca dos fatos e dados apresentados. Mesmo porque, se paralisarmos na reflexão de vítima-algoz, a nenhuma conclusão chegaremos além da de que não há julgamento a ser feito. Na verdade, interpreto a idéia do filme como uma maneira de repensar todos esses julgamentos que fazemos, das ideologias que participamos, da maneira infantil e simplista como a sociedade e a polícia reagem frente a uma situação como essa. Tanto não parece ser a idéia do diretor parar naquele tipo de reflexão, que ele fez questão de ouvir todos os pontos de vista envolvidos: a polícia, a família de Sandro, os amigos "de rua", os ocupantes do ônibus, a imprensa.

Ainda assim, alguns depoimentos parecem irônicos. Como o discurso recorrente da polícia sobre "atirar no momento certo ou não": qual momento deveriam ter atirado, por que não atiraram naquele, por que demoraram tanto para atirar... Tudo é dito com naturalidade e de uma forma como se ouvir aquilo também fosse tão natural quanto terem dito. Esse discurso é relatado pelos policiais como se, sem sombra de dúvidas, ter atirado no Sandro no momento certo dentro do ônibus fosse a solução ideal. E discordar disso não necessariamente significa colocar o Sandro como uma vítima que não merece morrer (como normalmente concorda-se porque "esse bandido merece morrer mesmo"), mas como já disse, uma maneira de repensar essas soluções simplistas, de negar a realidade que nós mesmos criamos e alimentamos, ignoramos, e depois queremos simplesmente (e, no caso, literalmente) sufocar, abafar.

Abandonar um pouco a velha discussão de vítima-algoz e ouvir os gritos do Sandro. Os gritos que jamais foram ouvidos, gritos que desde pequeno ele insistia em trazer. Os gritos de denúncia que não queremos ouvir. Se não é possível que ouçamos em paz, ouçamos à força. Talvez o Sandro compreendeu essa "verdade" ao longo de sua vida. A sociedade não ouve a miséria, o sofrimento, a exclusão, e injustiça social e todas essas terríveis formas de violência. Se simplesmente ignoramos toda essa realidade nua que se nos apresenta, a saída encontrada pela própria então é nos jogar tudo isso "na cara", de uma maneira que nos envolva diretamente. Se achamos que desprezando tudo, nos isentamos de nos relacionar com essa "alter-realidade", ela então se volta para nós do mesmo jeito como fazemos para com ela: de maneira fria, maldosa, fatídica, desesperadora."

(Abril de 2006).

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