agosto 21, 2006

Orgulho e perdão

Às vezes, bate aquele medo de ser hipócrita. Mas aí eu procuro o sentido no medo. Alguma coisa aí deve existir para que eu me sinta incomodada.

É que muitas vezes falamos tanto e escrevemos tanto, e outras muitas vezes deixamos de fazer aquilo que tanto falamos e escrevemos...

Tenho meus defeitos, e tenho consciência deles. Defeitos é uma palavra forte, né? Parece que há galhos podres em nós. Talvez. Mas o que quero dizer é que tenho algumas características (aprendidas, herdadas) que, em certos momentos, não me fazem crescer, muito menos amar.

Tantas vezes sou preguiçosa, que acabo postergando as coisas, os fatos.
Tantas vezes sou impaciente, que acabo sendo grossa ou mal-humorada.
Tantas vezes sou orgulhosa, que acabo não reconhecendo meus erros, minhas limitações, muito menos me abaixando pra pedir perdão ou para perdoar.
Tantas vezes sou... flagelo, espinho, eclipse...

Geralmente me arrependo depois de uma palavra mal-dita, uma atitude mal-tomada, coisas que machucam os outros, principalmente aqueles que estão mais perto, e que amo tanto...

E o que mais me impede de caminhar pra frente é o orgulho... Orgulho que me enrosca em mim mesma, que me embrulha em um auto-julgamente hipócrita, em uma auto-flagelação que de nada adianta e de nada me acrescenta. Orgulho que fica apontando os erros dos outros para justificar a falta de pedir perdão e de perdoar...

E aí vejo que, se tenho forças para perdoar a mim mesma, terei para pedir perdão aos outros pelas feridas que deixo e faço. E também para perdoar as feridas que deixam e fazem em mim...

Tudo para que "Ele cresça e eu diminua"...

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"Perdão, Senhor!
Embora bem intencionado e cheio de boa vontade, nem sempre acertei em meu relacionamento humano.
Eu queria ser uma flor e fui um espinho...
Eu queria ser sorriso e fui mágoa...
Eu queria ser luz e fui trevas...
Eu queria ser estrela e fui eclipse...
Eu queria ser contentamento e fui tristeza...
Eu queria ser força e fui fraqueza...
Eu queria ser o amanhã e fui o ontem...
Eu queria ser paz e fui guerra...
Eu queria ser vida e fui morte...
Eu queria ser carinho e fui rudeza...
Eu queria ser sobrenatural e fui terreno...
Eu queria ser lenitivo e fui flagelo...
Eu queria ser amor e fui decepção...
Recebe, Senhor, em tuas mãos de misericórdia e perdão infinito o gosto amargo desta revisão."
(Pe. Rafael Lopes C.M.)

agosto 15, 2006

Ainda...

Porque ainda capto em seus olhos a indignação contra tudo aquilo que não podemos acostumar.
Porque ainda percebo em sua fala a coragem para denunciar o que precisa ser combatido.
Porque ainda vejo uma pessoa que não tem medo de peitar os opressores e poderosos para defender os oprimidos e marginalizados.
Porque ainda não sinto hipocrisia nessas atitudes.

Porque é difícil encontrar nos outros olhos, nas outras palavras, nas outras atitudes e promessas, toda essa indignação, coragem, paixão...

"Não quero acabar com o bolsa-família, quero acabar com o bolsa-banqueiros!" (Hoje, no debate da Band).

agosto 11, 2006

Saudades

Há quanto tempo não sonho mais com ela; e pensar nisso dá até medo de esquecê-la, o que sei que nunca acontecerá.
A cada época de voltar é uma lembrança que se acende...
Que saudades de seu sorriso raro, ao rir de si mesma ou de vergonha, ou ao ver uma criança...
Que dor ao bater na porta e saber que não suas mãos ásperas nunca mais as abrirão...
Ou seus calmos passos que nunca mais se aproximarão em busca de uma resposta para uma ingênua pergunta, "Estados Unidos é perto de São Paulo?", "Por que esse povo faz guerra assim?", "O que é comunidade?"...
Ou de sua voz que não mais relatarão-me seus sonhos e pesadelos, "O que será que isso significa?"...

Mas antes de me prender ao meu egoísmo, lembro-me da paz e alegria que a embalam hoje, paz e alegria que me confortam...

agosto 03, 2006

Revitalícia

Como quem faz festa em dia comum!
Leve e livre, como anágua de saia
sem dona!
Chinelas havaianas em pedal de bicicleta,
Quanto bom, revitalícia!

Como rasgar a casca da maçã,
E abocanhar a prova da tentação mais pura!
E abrir a janela de manhã
Pra dar de cara com uma estrela d'alva,
feliz, revitalícia!

Delícia, delícia de ares maiores
Peito esvaziado como colchão de ar
furado!
Esquecer o vão é bom,
relembrar as mãos ainda mais!

Quero a nuvem mais densa que vejo da rede
onde deito meus pés.
E penso na saudade
do que ficou de tudo: o que vale.
Revitalícia...

Só assim desejo o sol.
Ao provar da lua fresca.
Só assim desejo a lua
Ao provar do sol minguante.

Quanto bom, revitalícia!