"Um dia o amor nasceu
numa varanda regada de orvalho,
ao som das estrelas, com cheiro de lua,
Astuto, penetra, estranho, inesperado.
Ninguém pediu pra ele chegar,
nem avisou que estava na hora -
mas não podia ser abortado.
Seria um crime com algo tão belo,
tão simples, tão puro e frágil.
Quando a doce criança saltitou de alegria,
seu berro teve de ser silenciado.
Recebeu ordens de que teria de viver
fechada, trancada, até sua morte.
Jamais poderia brincar, correr, festejar,
crescer com saúde naquele lugar.
Sem entender o porquê,
silenciosa, então, se traduzia
apenas em carinho,
em olhar, em vontade,
em amizade ou impossibilidade,
em poesia.
Mas um dia
tiraram os cadeados, abriram os portões de ferro,
deixaram entrar uma fresta de luz,
e a criança-amor viu o sol.
O sol a cegou por instantes, e ela chorou de paixão,
de saudade do que não viveu.
A criança vislumbrou o mar e os jardins,
a imensidão do mundo em que poderia se divertir.
Mas já não tinha forças.
Precisava de alguém.
Precisava da certeza do mundo existente.
De que tudo não passava de um sonho covarde.
E aguarda, resistente, prudente e sem alarde,
a uma resposta do universo."
(A intenção não é mesmo ser nenhuma poesia, é só contar uma história. )
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