Contribuição acadêmica e científica para um momento propício. Genial.
"Podemos imaginar as mais diversas combinações para configurar uma identidade como uma totalidade. Uma totalidade contraditória, múltipla e mutável, no entanto una. Por mais contraditório, por mais mutável que seja, sei que sou eu que sou assim, ou seja, sou uma unidade de contrários, sou uno na multiplicidade e na mudança.
(...) ...cada comparecimento meu frente a outrem envolve representação num tríplice sentido:
1) eu represento enquanto estou sendo o representante de mim (como um identidade pressuposta e dada fantasmagoricamente como sempre idêntica);
2) eu represento, em consequência, enquanto desempenho papéis (decorrentes de minhas posições) ocultando outras partes de mim não contidas na minha identidade pressuposta e re-posta (caso contrário eu não sou o representante de mim);
3) eu represento, finalmente, enquanto reponho no presente o que tenho sido, enquanto reitero a apresentação de mim - re-apresentado como o que estou sendo - dado o caráter formalmente atemporal atribuído à minha identidade pressuposta que está sendo reposta, encobrindo o verdadeiro caráter substancialmente temporal de minha identidade (como uma sucessão do que estou sendo, como devir).
Ao me representar (no primeiro sentido - representante de mim), transformo-me num desigual de mim por representar (no segundo sentido - desempenho de papéis) um "outro" que sou eu mesmo (o que estou sendo parcialmente, como desdobramento de minhas múltiplas determinações, e que me determina e por isso me nega), impedindo que eu deixe de representar (no terceiro sentido - re-apresentação) para expressar o outro "outro" que também sou eu (o que sou sem estar sendo) - que negaria a negação de mim indicada pelo representar no sentido anterior (o segundo).
Ora, essa expressão do outro "outro" que também sou eu consiste na "alterização" da minha identidade, na supressão de minha identidade pressuposta e no desenvolvimento de uma identidade posta como metamorfose constante em que toda humanidade contida em mim pudesse se concretizar pela negação (não representar no terceiro sentido) do que me nega (representar no segundo sentido), de forma que eu possa - como possibilidade e tendência - representar-me (no primeiro sentido) sempre como diferente de mim mesmo - a fim de estar sendo mais plenamente.
Ou seja: só posso comparecer no mundo frente a outrem efetivamente como representante do meu ser real quando ocorrer a negação da negação, entendida como deixar de presentificar uma apresentação de mim que foi cristalizada em momentos anteriores - deixar de repor uma identidade pressuposta - ser movimento, ser processo, ou, para utilizar uma palavra mais sugestiva se bem que polêmica, ser metamorfose.
(...) Então, o "ser ser o que é" implica o seu desenvolvimento concreto; a superação dialética da contradição que opõe Um e Outro fazendo devir um outro outro que é o Um que contém ambos.
(...) Então, nem anjo, nem besta, o homem é homem... (...)."
(Antônio da Costa Ciampa)
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