Que hoje em dia as grandes cidades andam muito perigosas, já é chavão. Por acaso, algum pai ou mãe sensato deixa uma criança de 7 anos andar sozinha nas ruas do centro de uma capital? Atravessar sozinha uma grande avenida? Estar à mercê dos perigos da noite?
Agora... alguém já parou pra pensar em quantas crianças de 5, 6 anos estão por aí, perdidas nesse caos? Atravessando grandes avenidas sozinhas, dormindo em bancos de praças ou debaixo de pontes, SOZINHAS?
Estamos tão acostumados com as crianças de rua, que elas parecem adultas. Enquanto as crianças que têm uma família para cuidar e olhar por elas, só estas, sim, têm infância. Só estas são CRIANÇAS que necessitam de CUIDADO! As outras, não...
Levei um susto quando, em meio a uma aula de Desenvolvimento, a professora abriu-nos os olhos para essa situação. É tão óbvio... e talvez por isso, tão banal. Cheguei à conclusão que ninguém olha para uma criança de rua como criança, mas como ADULTO! Ninguém faz uma brincadeira ou acha bonitinho, como acontece normalmente com aquele irmãozinho, sobrinho ou priminho querido. Qualquer um destes, em uma família qualquer, é o centro das atenções, todos têm tempo para ele: todos têm tempo para sorrir, brincar, achar graça das estripulias ou até das malcriações! Na rua... qualquer criança é ignorada, desprezada! Um mínimo aproximar-se já é sinal de "cuidado, o marginal está chegando". Uma CRIANÇA!
Viver "TENDO MEDO" DE CRIANÇAS é muito triste. Eu, realmente, não me conformo nem consigo me acostumar com isso. Não mesmo. Remete-me até àqueles filmes trash, em que singelos e inocentes bonecos infantis transformam-se em assassinos e perseguem os mocinhos. Tsc, tsc...
Há uma crônica de Rubem Alves sobre este assunto que eu gosto muito, e sempre leio. Chama-se Que vontade de chorar, e o sentimento é esse mesmo. Recomendo a todos. Abaixo, um trecho em que eu sempre estaciono...
"Os especialistas no assunto já me disseram que não se deve ajudar pessoas nos semáforos, pois isso é incentivar a malandragem e a mendicância. Mas me diga: o que vou dizer àquela criança que me olha e pede: “Compre, por favor...”? Vou lhe dizer que já contribuo para uma instituição legalmente credenciada? Me diga: o que é que eu faço com o olhar dela?"---
Ao final daquela aula de Desenvolvimento, o vídeo que assistíamos encerrou-se com repórteres entrevistando crianças que trabalhavam para ajudar em casa (e portanto não estudavam, e raramente brincavam), questionando-as sobre o fato delas se considerarem crianças. As pobres criaturas de mãos e pés calejados e peles marcadas pelo sol escaldante de todos-os-dias respondiam um inocente "Sim...", enquanto seguia-se a triste legenda: "Ser criança não significa ter infância...".
Um comentário:
É, Let, eu sempre me pergunto isso quando vejo uma criança nessa situação: "o que é que eu faço com o olhar dela?". Sinto uma preocupação ainda maior quando essas crianças são meninas, porque logo estarão no mundo da prostituição, sendo exploradas e desrespeitadas, tendo filhos desordenadamente, pegando doenças... Esse post me lembrou uma propaganda que sempre me fazia chorar... "Moço, me dá dignidade?". Lembra?
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